01 September 2008

Sereia

o dedo indicador da memória aponta para ti em tardes como esta,
teu rosto rodopia, sem forma, nos sorrisos anónimos,
o resto da mão submete-se ao calor e
às rasuras de um bolso saturado de matéria vã.
o braço dispersa-se pelas suas próprias
células [infectadas pelo vírus Saudade] e extingue-se
neste movimento de teclas. habituar-se-á, não te preocupes.

a condição de cada objecto é a verdade
mas não há nenhum sem uma cor fora do lugar. neutra
perante essa coisa do existir ou do pensar que se existe. o dedo
indicador é uma aproximação perversa à área
de segurança delimitada por esse olhar. expansivo.
e aponta para ti.

(Sílvio Mendes)

25 July 2008

Vazio


Promessas de felicidade eterna
à todas as horas, em todos os sítios,
punhados de esperança
e uma tentativa desesperada de recordar alguma coisa,
Nada.

22 May 2008

O Brincador faz anos!


"Se não guardamos a data de aniversário de quem nos é importante na memória do coração, não vale a pena escrevê-la na agenda"

14 September 2007


Para lá da janela. Além do horizonte.
Entre o sal. Descoberto.
Na imensidão azul do infinito encantado.
Lá estava o mar. Ponto de reencontro.
Lugar onde o fim não esta por perto. Decerto.

O mar. Som indefinido.
Música solitária, inexcedível. O mar.
Cantando sussurros, gritos de inércia magnífica,
suspiros silenciosos de amorosas explosões.

13 August 2007

Uma menina pequenina



A menina dos pensamentos entranha-se na vida,
sorri tudo,
mesmo quando não sorri.

A menina dos pensamentos,
observa: olha, olha tudo
e vê, eu sei que vê.
E sei que ela sabe que eu sei.

A menina dos pensamentos sorri.
Depois revolta-se com o todo injusto que vê no mundo.
E depois acolhe o bom com o doce olhar que inventou.

A menina dos pensamentos tem um olhar só seu
que só ela sabe usar.
E eu sei. Porque já o vi.
E sei que ela sabe que eu sei.


(Agosto de 2006)

07 August 2007

1.
O que eles não sabem é que do outro lado há nuvens e fogo,
ribeiras de dor absorvente trazidas de outro lugar.

Ninguém especificou se era fronteira simples
ou cinquenta quilos de vida.
Mas cantavam e eu digo haver mais.

Se eu fosse muralha saltava para que os homens passassem.

Até que o sino partisse.
Até à ganância-cadáver por asfixia total.

Não quiseram que soubessem.
Grito, não os deixaram saber.


2.
Chove.
O coração continental debruça-se sobre a perversão das nuvens lacrimais.
Nada mais meu,
nada mais interior às coordenadas do vácuo.
É um funil,
cada onda que bate leva consigo um pedaço de vida,
cem anos de terra.
Mesmo que não chovesse.

(Agosto de 2004)

22 July 2007

Picada de Abelha




Na tua sombra me sento
e não sei se quero.
não é dor mas uma janela
aberta no peito com saída para o mar.

Onda vem, bate,
vem sempre,
bate sempre.

Perdida num casco de madeira, a boiar,
a sirene gane irritantemente:
«o meu amor partiu e não volta,
o meu amor partiu e não volta!».

Tenho medo, lua, tenho medo.
O teu castelo encantado cai
a meus pés
com tanto de ti.

Essa sombra onde me sento.

(Agosto de 2004)